Na época que as chuvas de março fechavam o verão e Tom Jobim cantava ao lado de seu inseparável copo de uísque, a fotografia era bem diferente. Lembro de um show desse maestro que fotografei. Sabia que as fotos tornariam-se históricas, pois Tom já não estava muito bem e nem fazia shows freqüentes. Por isso, me preparei pensando nos detalhes, comprei alguns filmes Ilford de 400 asas (que poderia puxar para 1.600 asas) e selecionei as lentes que usaria.
O dia do show chegou e lá estava eu fotografando o maestro. Não esperei passar uma noite se quer e entrei no laboratório, que mantinha em casa, para revelar aquelas películas pretas com furinhos nos dois lados que pareciam nada conter. A magia estava nisso, e mais emocionante que o show de Tom, era revelar a negritude do filme, fazendo aparecer imagens do passado, que nunca mais se repetiriam. A segunda parte do show, depois de um intervalo regado a cerveja na sala iluminada ao lado, era ainda mais surpreendente. Colocava-se o filme no ampliador, uma máquina de formato esquisito que emitia uma luz através de um funil e que ultrapassava o filme e refletia no papel fotográfico, cuidadosamente colocado. Após algum tempo de exposição, levava-se o papel para o revelador e aos poucos imagens em preto surgiam naquela face branca. Era como se fosse uma mágica, uma verdadeira prática alquimista.
Conto detalhes desse processo pois sei que os mais jovens nunca presenciaram essa alquimia. Dias atrás em uma aula de fotografia que lecionei na faculdade de jornalismo, ao discorrer sobre o assunto percebi olhos vidrados e curiosos, tentando imaginar como seria o ampliador (a máquina de luz), o laboratório, as químicas nas bandejas. Meus alunos estavam atentos, parecia que falava de outro planeta, de coisas sobrenaturais.
Contava como era a fotografia antigamente para que eles dessem valor à tecnologia atual, mesmo sabendo que apenas quem passou pelo antigo processo, realmente pode valorizar os atuais. Mas é importante saber, pelo menos para não deixar o clic fotográfico tão banal como é atualmente. Quem lembra dos filmes de 36, 24 e 12 poses? Tínhamos que ficar economizando, até porque o filme e principalmente a revelação eram caros. Hoje um chip comporta milhares de fotos, sem custo, praticamente de graça.
Voltando ao show de Tom, imaginem se algum problema acontecesse na maquina, ou houvesse um erro do fotógrafo ou ainda um equívoco na revelação, que só fosse percebido na hora da ampliação das fotos. Seria tarde demais, muito tarde. Aquele momento não mais retornaria, não haveria mais show do Tom no Rio de Janeiro. Se o show fosse nos dias de hoje, a situação seria muito diferente. Começando pela possibilidade de ver as fotos na hora! Isso é maravilhoso, você ver exatamente como a foto está e ainda poder corrigir caso tenha algum problema de iluminação, de sensibilidade, foco, velocidade. Depois não temos que contar os clics, esperar e torcer por aquele momento especial. Hoje, podemos disparar a vontade, sem economia, até conseguir a melhor foto, o melhor gesto, a melhor situação. Se faltar espaço no chip, podemos simplesmente apagar as piores fotos e continuar nossa artilharia.