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| SER UM JORNALISTA | ||
| As faculdades não emitem apenas diplomas, formam JORNALISTAS. Passado um pouco do espanto e indignação que causou a decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade de diploma para exercer a profissão de jornalista, senti a necessidade de expressar algumas considerações. Sem dúvida, com essa decisão há um retrocesso de 40 anos de reivindicações por parte dos jornalistas por melhores condições de trabalho e por informações de qualidade. Não está em jogo o corporativismo, mas a produção e distribuição de informações que esclareçam, que denunciem e que eduquem a sociedade. Não acredito que o problema seja o exercício pleno das liberdades de expressão e informação como afirmam os juízes do STF. Isso todos podem exercer, caso tenham competência, como colaboradores de jornais, rádios, TVs e internet. A obrigatoriedade do diploma de jornalismo não fere esse direito. A defesa do diploma de jornalismo passa por questões mais profundas do que a liberdade de expressão. Nas faculdades de jornalismo não se aprende apenas as regras gramaticais para escrever; a modulação da voz para uma transmissão de rádio; o posicionamento diante da câmera de vídeo para uma reportagem. Nas salas de aula se aprende principalmente a ter uma consciência crítica para interpretar os fatos e transmiti-los de forma mais justa possível. Aprende-se a encarar os fatos como tendo sempre duas versões, e não somente aquela dada por uma importante personalidade. Aprende-se a duvidar das respostas fáceis, a investigar as dúvidas e os joguetes feitos por baixo do pano. A idéia que a decisão do STF transmite é que as informações nos meios de comunicação de massa possa ser feita de forma casual, como em uma mesa de bar, sem compromisso, sem critérios, sem apuração, ao contrário do senso comum da sociedade atualmente que clama por informações mais claras, confiáveis e imparciais. Não quero afirmar com isso que as faculdades de jornalismo formam profissionais de alto gabarito. Mas com certeza as horas e horas de estudo em sala de aula, leituras em casa e ensinamentos de mestres e doutores servem para formar um profissional com mais ética e estrutura para desempenhara a função de jornalismo. Seguindo no entendimento do STF sobre o cerceamento da liberdade de expressão por um diploma, pode-se questionar também o diploma de direito. Porque diante de um juiz apenas um advogado pode defender o réu? Porque o réu não pode se expressar livremente? Penso que esse caso é igualmente parecido com o do jornalismo. Nas duas situações o cidadão comum poderia atuar, mas alguém com formação universitária teria condições de atuar de uma forma melhor, com mais conteúdo. Não acredito que as faculdades de jornalismo sofram muito com essa decisão, porque como já foi dito, não se ensina a expressar-se apenas, mas a SER UM JORNALISTA, um comunicador que interpreta os fatos e sabe divulgá-los levando em consideração à cultura de seus receptores e as especificações da mídia utilizada. Pois de nada adianta divulgar uma informação que não seja compreendida, que não pertença ao repertório cultural do receptor. Perde-se uma batalha por ignorância ou talvez má fé, mas não se perde a luta. Já existe um movimento para a criação de um projeto de lei no Congresso para devolver a obrigatoriedade do diploma e que conta com o apoio do Ministro das Comunicações Hélio Costa. Enquanto isso, cabe as faculdades de jornalismo mostrar à sociedade sua importância, formando jornalistas que realmente saibam pensar, duvidar, investigar e lutar por seus direitos. |